Fritar ovos

Enquanto escrevo meu texto e frito miolos, conforme já mencionei no post anterior, postarei aqui pequenos escritos, vídeos e músicas que sejam afins ao tema do blog. Sugestões e contribuições serão bem vindas!

Hoje, aproveito para divulgar um vídeo produzido por um querido amigo, sobre como fritar ovos. Estrelado por Alex Sotero e ovos de galinhas caipiras, nos deixa uma questão, debate já iniciado anteriormente: “você prefere seu ovo com ou sem o ‘dourado’”?

*infos e créditos, no final do vídeo. 

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Passa tempo

Sim, sim: há muito não tenho conseguido reservar tempo para dedicar-me ao blog. Enquanto escrevo meu texto para a qualificação, deixo aqui um vídeo como “passa tempo”…

Até breve, assim espero…

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Nos cordeiros, parce-que ça pique la langue

IMG_1547[1]terroir dos Cariris não mais existe, graças aos territórios em processo de especulação imobiliária e imaginária, os quais se multiplicam nas terras paulistinhas. Porém, hoje, ainda bem: temos a Casa dos Cordeiros.

Quinta-feira torrencial, uma hora e pouco pra aterrissar: não tinha teto, não tinha chão, uma quinta-feira muito engraçada. Mas fui às cegas. Cheguei às cegas. E, às cegas, cozinhava a atrevida! Cordeiros sem luz, mas com a cozinha sob as divinas mãos alquimistas de Lourdes. Felipe, também mestre na arte da hospitalidade, recebe compreensivo com o atraso.

Cerca de seis meses eu não visitava a Casa dos Cordeiros. A iluminação forçada à velas não deixava evidenciar o que os olhos buscavam, teimavam em ver. Mas, no tremular das chamas, pude notar a habitação. Pouco a pouco se aclimatavam Felipe e Lourdes. A casa ganhara mais contornos, recheios colores e adornos. As múltiplas coisas encontravam seus lugares. Pertencimento. Enraizamento. História em constituição. E a a casa é a casa, se nos cariris deixados à pau de arara ou se na mudança para os cordeiros, a casa é a casa de Felipe, Lourdes, Chiste e Chamusca – este últimos os gatunos. Se você tiver sorte: Chiste vem dar o ar da graça. Se tiver bastante sorte, Chamusca também aparece, dizem ser mais arisco, comigo nunca foi.  

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Um menu do dia, preparado com um belo temperamento: chiles que “picam a língua” – parce-que ça pique la langue. Aberto com o incontounable guacamole & totopos. E, especialmente adornado com romãs. Nenhum adorno na casa de Lourdes e Felipe é supérfulo. Romãs, máscaras e bonecos de telequete, caveiras, obras de Felipe, flores em resina, flores sobre as mesas: um exagero necessário, um convite ao passeio do olhar, que sempre acha novidade. É a infinitude do encontro com o velho-novo que apraz, conhecido e desconhecido convivem em dialética. Encontrar guacamole com totopos da Lourdes é assim também.

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E vieram as quesadillas de milho com molho almendrado: novamente uma dialética de encontro e desencontro: algo se assemelhava ao mole negro, mas também não se tratava dele nem de longe. Uma felicidade familar. Uma felicidade novidadeira. O paladar dava pulinhos de alegria. Depois: os ceviches de corvina sobre totopo. Eu já havia tido a chance de provar os ceviches da Lourdes, num cardápio especial que ela executou em um restaurante de ceviches. E, portanto, já sabia que tipo de excelente tratamento ela dá aos peixes cozidos no ácido: prato aparentemente simples, ela o refaz de forma a convocar novamente o familiar e o estranho.

E as picardias dos chiles apelavam às papilas. E a delícia de suas picâncias só fazia intensificar os sabores.

IMG_1522[1]Segue o prato que eu, ao ler previamente o cardápio, pensava ser o mais enigmático: sopa de tortillas. Sopa? Pois sim: uma sopa de tomates a ser sorvida, acrescida de tortillas retangulares e mini cubinhos de queijo. Milho, queijo e tomate: porque que eu não pensei nisso antes? Tão óbvio, tão novo. Tão perto, tão longe.

E o calor dos chiles sobe ao corpo. Margaritas de tamarindo e um Enmascarado mescal fazem também bons acompanhamentos, bons temperamentos.

Principal, reinando na noite, o tagliarini com lagostins. Tudo desmanchava al dente, perfeitamente. Tudo muito fresco e cuidado. Mas sem frescura. Havia mais chiles no molho, que faziam vivificar todos os gostos e gostares ao mesmo tempo agora. Uma colagem colorida que se desenha na boca, composta por fragmentos que fazem um inteiro sabor intenso.

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A sobremesa? Um pudim de leite com coco para amaciar no final. E a vontade de começar tudo de novo. Tudo novo-velho.

Café, por favor? Coado e puro! E nenhuma dúvida: até a próxima! Gracias Lourdes e Felipe! Gracias Chiste, por ter dado o ar da sua graça! Um copo d’água e a infinita felicidade de voltar pra casa depois de mais uma experiência mexicana, tão especial. Afinal: a la mesa y a la cama, solo una vez se llama!

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Fica, vai ter linguiça!

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“Casa comigo, Patricia Polato?” – é meu eterno pedido para a moça, que sorri sem graça e me responde: “Você me faz passar vergonha!”. Eu explico sem vergonha: “É que você tem linguiça!”

Patricia Polato já é casada, na verdade, com Marquinhos. Ele, um arquiteto bon vivant que escolhe as cervejas que eu tomo por lá. Ela, charuteira (ops!), cartucheira (ops!), charcuteira de uma linhagem feminina na cozinha e masculina na marcenaria, só poderia ter nascido para defumar – como ela mesma se define.

Ambos fizeram, na terra paulistinha das linguiças, um boteco bem do arrumado para vender os produtos que ela artesanalmente prepara. Embutidos e defumados, em sua maioria com carne de porco, da melhor estirpe. São várias receitas de linguiça a depender da sazonalidade dos produtos que são inseridos.  E uma carta com toda a sorte de cervejas nacionais para molhar a garganta.

104A moça não está pra brincadeira: não enche linguiça! Ela as intumesce com cortes precisos de carne na ponta da faca. Faz variações interessantes, receita receitas simples e preciosas. Toda vez que vou lá, escolho pelo final do expediente, ou por um horário mais tranquilo, só para que o tempo permita longas conversas sobre gastronomia, embutidos mundo a fora e promessas: bacon de pato, butifarra, codeguim, alheiras e farinheiras entre outras… Algumas das promessas já cumpridas, outras a cumprir. Assim, vamos marcando, a cada vez, uma próxima, com próximas novidades.

Cada conversa é uma aula. E Patricia tem esse brilho no olhar e o entusiasmo na melodia da fala, que só porta quem escolhe trabalhar com o que ama.

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O trabalho de Patricia Polato já é conhecido. O chef Alex Gomes, do restaurante Morro Paulicéia, recententemente elaborou uma entrada e um prato com os produtos dela num menu degustação (em parceria com o chef Rodrigo Oliveira e o chef Eudes Assis) no Dalva & Dito convida. Ela ficou orgulhosa e satisfeita com o resultado. Eu também, se me cabe algo neste minifúndio.

E, definitivamente, os porquinhos não morrem à toa, se sua carne for tratada por essa chef charcuteira. Tanto as frescas, quanto as secas (curadas) são uma descoberta uma a uma. E isso só é possível pela característica artesanal da sua manufatura. Se você resolver aparecer por lá, não deixe de pedir também pelo pão com calabresa! E descubra a sua linguiça preferida: “fica, a Patricia tem linguiça!”

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Ao contrário: tatin

No post sobre “Branca de Neve, ou: das maçãs”, comentei rapidamente que uma das minhas versões preferidas desta fruta prazer proibido é sob a forma de tarte tatin.

IMG_1326[1]Esta torta é bem torta. Feita au contraire, a massa é colocada por cima das frutas e somente depois a torta é envirada num prato de serviço. Diz o “mito fundador” desta torta que ela foi inventada ao acaso pelas irmãs Tatin, Stéphanie e Caroline, nos idos do final do século XIX. A ideia, parece, era conseguir uma torta gostosa cuja confecção não fosse tão demorada. O resultado de sabor é dos meus preferidos: mistura os ácidos das maçãs com o doce do caramelo e o arenoso amanteigado da massa.

Para esta, mesmo sendo das tortas doces, usei meia receita de pâte brisée. Fiz, mais ou menos, 100 gramas de caramelo amanteigado  que foram despejados ao fundo de uma forma (20 cm de diâmetro), maçãs cortadas em meia-lua arrumadas por cima do caramelo e uns 40 minutos de forno. Mas, por ser a minha primeira vez nesta receita, fui temerosa e receei na quantidade de maçãs, da próxima vez usarei todo o pouco mais de 1 kg recomendado.  

Depois deixei as frutas amornarem um tanto e mal arrumei a massa por cima delas, como eu disse: torta torta. E mais uns 30 minutos de forno pra assar e corar a massa.

Comemos com nata 45 % de gordura e fomos todos pecadores: não sobrou nenhum pedaço pra presentear outros amigos. Se fomos expulsos? Que nada: fomos ao paraíso gourmande! Quer melhor?

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Sugestões de harmonização – bibliografia

IMG_1560A ideia de harmonizar leituras freudianas com alimentação surgiu no intervalo da disciplina de pós-graduação, sobre o conceito de angústia na teoria freudiana, ministrada pela Prof. Dra. Ana Maria Loffredo. Agradeço a contribuição dos colegas pelas associações. Abaixo, listo algumas sugestões:

1. Sigmund FREUD. Mal estar na civilização (1930) – harmoniza com McDonald’s

2. Sigmund FREUD. O futuro de uma ilusão (1927) – harmoniza com Ráscal

3. Sigmund FREUD. Inibições, Sintomas e Angústia (1926) – harmoniza com batata processada congelada para fritura.

4. Sigmund FREUD.  Observações sobre o amor transferencial (1915 [1914]) – harmoniza com qualquer comida bem feita. É na singularidade de cada caso que esta harmonização pode se estabelecer.

5. Sigmund FREUD. Análise de uma fobia em um menino de 5 anos (1909) – harmoniza com carne de cavalo, se já adiantado na leitura do texto. Ou com churros e doce leite, servido no Dona Onça (para ilustrar: veja a foto acima).

A obra de peso do autor tem mais de 20 volumes e inúmeros textos. Sendo assim, as possibilidades de análises são intermináveis. Por aqui, aceitamos contra argumentações e outras associações.

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Branca de neve, ou: das maçãs

Eis que um amigo encontra uma pérola, no volume 2 do “Fundamentos da Psicanálise: de Freud à Lacan”, de Marco Antônio Coutinho Jorge:

“Uma menina de seis anos de idade, ao ser perguntada pela mãe sobre o que queria comer, respondia: ‘Eu quero maçã, se não tiver’.”

Começamos uma conversa, de várias bocas, sobre maças: maçã, “se não tiver”, tem a ver com falta, portanto, com desejo. Maçãs podem ser divididas. Podem conter veneno e disparar o aparecimento de paranoias.

Fato é que esta fruta aterrizou numa conversa entre psicanalistas bem humorados. No Gênesis, enquanto fruto proibido da árvore do conhecimento, faz indagar sobre o saber e o desconhecido do desejo. Faz cair o homem, ou melhor, a mulher Eva em tentação. Na Branca de Neve, a relação tão difícil entre madrasta envelhecendo e enteada em pleno florescer da juventude. Foi, ou ainda é, uma caricatura do que se deve comer, quando se está sob regime de emagrecimento, daí, seu sabor é horrível. Pessoalmente, prefiro sob a forma de tarte tatin. E você, como quer comer a sua maçã?

Afinal, segundo Francis Hime: uma maçã é uma maçã!…

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