O terroir dos Cariris não mais existe, graças aos territórios em processo de especulação imobiliária e imaginária, os quais se multiplicam nas terras paulistinhas. Porém, hoje, ainda bem: temos a Casa dos Cordeiros.
Quinta-feira torrencial, uma hora e pouco pra aterrissar: não tinha teto, não tinha chão, uma quinta-feira muito engraçada. Mas fui às cegas. Cheguei às cegas. E, às cegas, cozinhava a atrevida! Cordeiros sem luz, mas com a cozinha sob as divinas mãos alquimistas de Lourdes. Felipe, também mestre na arte da hospitalidade, recebe compreensivo com o atraso.
Cerca de seis meses eu não visitava a Casa dos Cordeiros. A iluminação forçada à velas não deixava evidenciar o que os olhos buscavam, teimavam em ver. Mas, no tremular das chamas, pude notar a habitação. Pouco a pouco se aclimatavam Felipe e Lourdes. A casa ganhara mais contornos, recheios colores e adornos. As múltiplas coisas encontravam seus lugares. Pertencimento. Enraizamento. História em constituição. E a a casa é a casa, se nos cariris deixados à pau de arara ou se na mudança para os cordeiros, a casa é a casa de Felipe, Lourdes, Chiste e Chamusca – este últimos os gatunos. Se você tiver sorte: Chiste vem dar o ar da graça. Se tiver bastante sorte, Chamusca também aparece, dizem ser mais arisco, comigo nunca foi.
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Um menu do dia, preparado com um belo temperamento: chiles que “picam a língua” – parce-que ça pique la langue. Aberto com o incontounable guacamole & totopos. E, especialmente adornado com romãs. Nenhum adorno na casa de Lourdes e Felipe é supérfulo. Romãs, máscaras e bonecos de telequete, caveiras, obras de Felipe, flores em resina, flores sobre as mesas: um exagero necessário, um convite ao passeio do olhar, que sempre acha novidade. É a infinitude do encontro com o velho-novo que apraz, conhecido e desconhecido convivem em dialética. Encontrar guacamole com totopos da Lourdes é assim também.
![IMG_1549[1]](http://eteapetece.files.wordpress.com/2013/02/img_15491.jpg?w=240&h=240)
E vieram as quesadillas de milho com molho almendrado: novamente uma dialética de encontro e desencontro: algo se assemelhava ao mole negro, mas também não se tratava dele nem de longe. Uma felicidade familar. Uma felicidade novidadeira. O paladar dava pulinhos de alegria. Depois: os ceviches de corvina sobre totopo. Eu já havia tido a chance de provar os ceviches da Lourdes, num cardápio especial que ela executou em um restaurante de ceviches. E, portanto, já sabia que tipo de excelente tratamento ela dá aos peixes cozidos no ácido: prato aparentemente simples, ela o refaz de forma a convocar novamente o familiar e o estranho.
E as picardias dos chiles apelavam às papilas. E a delícia de suas picâncias só fazia intensificar os sabores.
Segue o prato que eu, ao ler previamente o cardápio, pensava ser o mais enigmático: sopa de tortillas. Sopa? Pois sim: uma sopa de tomates a ser sorvida, acrescida de tortillas retangulares e mini cubinhos de queijo. Milho, queijo e tomate: porque que eu não pensei nisso antes? Tão óbvio, tão novo. Tão perto, tão longe.
E o calor dos chiles sobe ao corpo. Margaritas de tamarindo e um Enmascarado mescal fazem também bons acompanhamentos, bons temperamentos.
Principal, reinando na noite, o tagliarini com lagostins. Tudo desmanchava al dente, perfeitamente. Tudo muito fresco e cuidado. Mas sem frescura. Havia mais chiles no molho, que faziam vivificar todos os gostos e gostares ao mesmo tempo agora. Uma colagem colorida que se desenha na boca, composta por fragmentos que fazem um inteiro sabor intenso.
![IMG_1530[1]](http://eteapetece.files.wordpress.com/2013/02/img_15301.jpg?w=150&h=112)
A sobremesa? Um pudim de leite com coco para amaciar no final. E a vontade de começar tudo de novo. Tudo novo-velho.
Café, por favor? Coado e puro! E nenhuma dúvida: até a próxima! Gracias Lourdes e Felipe! Gracias Chiste, por ter dado o ar da sua graça! Um copo d’água e a infinita felicidade de voltar pra casa depois de mais uma experiência mexicana, tão especial. Afinal: a la mesa y a la cama, solo una vez se llama!
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